Preconceito e dúvidas ainda afastam moçambicanos das dádivas de sangue
- 19/01/2026
"Sim, há muito preconceito em relação à doação de sangue", lamenta Sandra Oficiano, em entrevista à Lusa, queixando-se da falta de dadores voluntários e regulares.
"Há cada vez mais dificuldade de ter dadores voluntários ou de ter pessoas a doar sangue. Isso porque não é nossa cultura. Algumas pessoas ouvem falar de doação de sangue exatamente quando tem um familiar, um problema. Então, não é nossa cultura e fica aquela coisa, será que não vão tirar todo o meu sangue?", relata a médica, que lidera aquela unidade há 10 anos.
Ali a azáfama é grande, entre a consulta prévia, a recolha, com vários dadores numa sala, o acompanhamento constante de enfermeiros e auxiliares e o pequeno lanche no final.
Priscila Xana, 27 anos, trabalha com importação de roupa e doou sangue pela primeira vez há quase 10 anos, na escola. Retomou entretanto as dádivas regulares depois de uma campanha na Igreja.
"Eu acredito que é o gesto mais nobre de amor. Eu digo que amo o próximo, então tenho que demonstrar com alguma coisa que eu realmente amo o próximo", explica.
Admite contudo que o receio continua a dificultar trazer outros ao Banco de Sangue: "Muitas vezes as pessoas não doam por medo de agulha. Então, tem que ter um pouco de coragem e saber por que está dando o sangue".
Depois das dificuldades de 2024, quando a agitação social que se seguiu às eleições gerais de 09 de outubro condicionou todas as atividades e movimentações no país levou a mínimos de dádivas de sangue recolhidas, de 25 mil no HCM, esse número cresceu mais de 2.000 unidades em 2025, garantindo "aproximadamente 96%" das necessidades do maior hospital do país.
"Colhemos acima de 27 mil unidades de sangue no ano passado, o que serviu para atender perto de 30 mil pacientes", detalha ainda Sandra Oficiano, recordando esse "ano atípico" de 2024, com 25 mil unidades recolhidas.
"Havia muitas dificuldades para ter acesso ao hospital, principalmente os dadores de sangue. Então, tivemos esta dificuldade, mas no ano passado trabalhámos normalmente e conseguimos superar aquilo que foi o ano anterior", recorda.
Aquele banco conta com mais de 40 mil dadores de sangue registados, mas a grande maioria são familiares de pacientes que pontualmente necessitam de transfusões e que acabam por não regressar para novas dádivas.
"Não iremos dizer 40 mil, mas se nós tivéssemos, por exemplo, 2.000 dadores voluntários, de repetição, penso que teríamos estoques suficientes para manter ou para suprir aquilo que são as necessidades de sangue no hospital", reconhece.
"De facto, temos muitos dadores registados que dão uma vez, duas vezes, e depois não voltam. O ideal seria que as doações fossem de repetição, que o dador voltasse para doar no tempo estipulado, que é de três em três meses para os homens, para as mulheres de quatro em quatro meses. Isso permitiria que tivéssemos um estoque garantido para atender aquilo que são as necessidades e principalmente as urgências", aponta a médica.
O problema, confessa, é a dependência das doações por familiares, em episódios de urgência, que depois não regressam: "Podem tornar-se dadores voluntários para evitar que haja alguém que fique à espera que o familiar venha doar sangue. Na verdade, nós não condicionamos o tratamento à doação de sangue".
Até porque, explica, depender dos familiares, em momentos de aflição, para estas dádivas não o cenário ideal.
"Sabemos que no momento em que há um paciente ou tem um familiar doente, já há muita preocupação na família. Então, não é o momento certo para vir ao banco de sangue e doar sangue. Mas porque não temos condições suficientes ou não temos sangue suficiente para suprir, temos que contar com os familiares", reconhece a diretora.
É o caso do segurança Manuel Jamal, de 38 anos, que foi ao banco pela quinta vez: "Doar sangue para mim é salvar a vida de outras pessoas, é muito bom".
Um exemplo que, defende, devia ser seguido por outros, até porque não se sabe o dia de amanhã.
"Que ganhem coragem, que venham também doar sangue para outras pessoas que precisam do sangue. Não é só cuidar de saúde e manter com a sua saúde, há pessoas que estão a sofrer aqui no hospital e ainda precisam de ajuda, um apoio", diz.
Por agora, explica Sandra Oficiano, aquele banco está "estável" em relação às unidades de sangue disponíveis, depois de mínimos no período do final do ano, conseguindo neste momento "atender" as solicitações.
"O que nós apelamos é que os familiares se convertam em dadores voluntários", desafia.
Orlando Nhassengo, 43 anos, trabalhador por conta própria, está naquele banco para doar sangue pela terceira vez no espaço de um ano. As duas anteriores por vontade própria, mas desta vez para ajudar a esposa.
"Foi muito normal, que [as outras pessoas] se aproximem, que isso é uma coisa muito normal, não dói", remata.
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