Entre cheias sem memória em Moçambique, a moto é o último transporte

  • 24/01/2026

"Estão a pedir ajuda para passar. Eu às vezes aceito, fazer o quê", explica à Lusa este vendedor na vila da Manhiça, quase 90 quilómetros a norte de Maputo, por estes dias transformado em mototaxista.

 

Encharcado quase até ao joelho, montado na motorizada em Mahocha Homo, a meio caminho entre Manhiça e Palmeira, posiciona-se à espera de clientes, entre os muitos que já só a pé e a medo arriscam percorrer a estrada, a qual só se percebe existir pelas proteções laterais.

Fora isso, é tudo uma grande área alagada, que não se percebe a profundidade, por entre exemplos de adaptação e resiliência, como Francisco.

Cada viagem, de cerca de 15 minutos, água fora, com direito a percalços e sustos pelo meio, custa 100 meticais (1,3 euros). Só não sabe por quanto tempo: "Se a água continuar a subir já não vou mais além, porque também tenho medo".

Como todos os que por ali andam, Francisco recorda que já viu cheias, mas "desta vez (...) é muito pior".

Sem dinheiro para pagar a motorizada de Francisco, Adelina Vilanculo arrisca e atravessa a pé a zona de Mahocha Homo, com a filha pela mão. A água já vai pelo joelho, mas com as machambas (campos agrícolas) inundadas e a escola dos mais novos a começar dentro de 15 dias, tem de sair à procura de negócio.

"Estamos a morrer. A água está cheia aqui, nós não temos machamba, não temos comida. Nossa comida já foi. Batata, banana, que vendemos, já foi", atira, desolada, para logo a seguir prosseguir a marcha pelo meio do que aparenta ter sido a N1, a estrada mais importante e movimentada do país, há uma semana sem circulação em vários troços a norte de Maputo, devido às cheias generalizadas, nunca vistas.

"Nunca vi, é a primeira vez", diz Adelina.

Com tanta água, em todo o lado, inclusive alertas de cobras e crocodilos em zonas antes pouco habituais, face à subida do nível das águas, Emídio César saiu, de cana na mão, para pescar. Mas sem sucesso: "Está muito difícil. Com essa água, mesmo nós pescadores até temos medo de aproximar".

Enquanto percorre, de impermeável e galochas, a enorme reta de Mahocha Homo, observa a água sempre a aumentar, numa zona onde antes apenas existia um pequeno riacho que mal alimentava os campos agrícolas.

Pouco depois assume o receio de não conseguir voltar ao bairro, para casa.

"Nunca vi, é a primeira vez que estou a ver esta situação. Estamos bem preocupados", diz.

Ao lado, Silvestre Ndlhuvane também não tem como e prossegue a pé, aos ziguezagues, pelo meio da água, algo que, concorda, "nunca" se viu ali. Ainda assim, está quase a chegar ao destino: "Conseguimos, mas pelo sacrifício (...) estão a arriscar mesmo".

Também Vusi Gil tenta chegar de Palmeira à Manhiça, para o serviço, mas está difícil, no meio de tanta água. Uma viagem de 10 minutos de carro, tornou-se num pesadelo, por entre um lago, num caminho feito a medo, enquanto a água arrasta.

"Aqui a situação está muito mal. Para passar aqui é muito difícil (...) está cheio de água, não dá para carros passarem, só da para passar a pé, mas mesmo assim a água está a encher muito", observa, acrescentando: "A pé ainda conseguimos, mas parece que a água não para".

Enquanto isso, faz contas à vida. Sem transportes e com os campos destruídos, a próxima consequência é a subida dos preços dos alimentos: "O preço ainda está normal, mas não sei daqui a nada".

Mais de 700 mil pessoas já foram afetadas na atual época das chuvas em Moçambique, desde 01 de outubro, mas essencialmente nas cheias da última semana, sobretudo no sul, com registo de mais de 120 mortos neste período.

Pela Manhiça, a quase duas horas de carro de Maputo, a surpresa é geral.

"Eu sou da década de 80. Ouvi falar disto em 1977 (...), não tenho memória disto [assim]. É a primeira vez", confessa Alberto Manhiça. Seguiu de carro do centro da vila para norte, até ao limite possível, admitindo "curiosidade em ver" algo que nunca pensou acontecer.

"Anualmente há cheias, mas nesta proporção não (...). Estamos surpreendidos com isto", aponta, enquanto se prepara para regressar, optando por não continuar.

"É um risco. Como se sabe, tudo é difícil", conclui.

Leia Também: Militares sul-africanos resgataram 500 pessoas das cheias em Moçambique

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2925433/entre-cheias-sem-memoria-em-mocambique-a-moto-e-o-ultimo-transporte#utm_source=rss-mundo&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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