Em Luanda, munícipes gritam por fome nos 450 anos da cidade

  • 24/01/2026

Ouvidos pela Lusa numa ronda pela cidade, munícipes lamentaram que o êxodo demográfico tenha transformado Luanda numa cidade com múltiplos desafios em que o investimento público não responde às necessidades dos quase 9 milhões de habitantes.

 

O centro da capital e do poder político angolano ainda preserva alguns edifícios, instituições e residências da época colonial, mas nas zonas periféricas da cidade as habitações são quase sempre precárias, muitas sem água canalizada ou energia.

Com uma rede de transportes públicos escassa e inoperante, o recurso ao "candongueiro" ou "azuis e brancos", como são conhecidos os transportes privados de passageiros na cidade fundada em 25 de janeiro de 1576 pelo explorador português Paulo Dias de Novais, é a opção de muitos habitantes.

A cosmopolita cidade é também feita de "zungueiras" (vendedoras ambulantes), e de trabalhadores como os "roboteiro" (como são conhecidas os jovens que transportam mercadorias com carrinho de mão), figuras que animam o vibrante mercado informal ao som do semba e  do kuduro -- estilos de dança e de música nascidos na periferia, que marcam o ritmo e atraem a curiosidade de turistas.

O Bairro Operário (B.O), o Marçal, o Rangel e o Sambizanga são zonas periféricas e históricas da cidade onde se forjaram nacionalistas, cantores, jogadores, dançarinos, atores, DJ, líderes políticos, médicos e outros, mas hoje os habitantes lamentam o cenário e pedem melhorias.

Emanuel Penela, sapateiro de 69 anos, é residente do B.O e critica a acelerada transformação da cidade, que deixou para trás sítios culturais e vestígios da época colonial, referindo que as novas construções surgem apenas para beneficiar uns poucos ao invés da maioria da população.

"Há coisas que estão bem e há outras que estão a andar mal, por exemplo, há sítios culturais que já partiram, os vestígios coloniais já não existem, isso é de lamentar, é uma transformação, temos edifícios muito grandes", diz o munícipe, que lamentou também a falta de saneamento.

À Lusa, sentado debaixo de uma árvore, onde instalou uma sombra improvisada para coser sapatos, zona frontal ao antigo e conhecido "Mercado do Beato Salú", recordou que o país comemorou 50 anos de independência, "mas não há sinais de melhorias na condição de vida do povo".

"Podemos construir casas, edifícios, mas não são para o bem do povo, é apenas um pequeno povo que está a usufruir aquilo e a maioria vive sem saneamento básico, precisamos de melhor alimentação, porque uma pessoa para adquirir conhecimento tem de comer bem", aponta.

O "mais-velho" Penela lamentou ainda a perda dos valores culturais em Luanda e pelo país, sobretudo no seio da juventude, perspetivando um futuro sombrio tal como o do B.O -- que diz ser a "base do nacionalismo" - onde falta água e multiplicam-se as doenças.

No Marçal, outro bairro histórico de Luanda, há ruas em reabilitação, a maioria terraplanada, e a zona conserva ainda casas de madeira da época colonial, período que Luzia Pedro, 69 anos, recorda com nostalgia.

"Antigamente era boa, Luanda, as coisas eram diferentes, mas hoje também já não temos aquela Luanda", recorda.

A "tia Luzia", como é conhecida pelos vizinhos na Rua do Mercado da Chapada, refere que os moradores da zona estão há seis meses sem água, lamentando ainda o desemprego juvenil e a fome que afeta muitas famílias naquele bairro.

"Estamos aqui com os nossos netos que não estão a trabalhar, não há emprego, muita fome (...) nós não trabalhamos, é a vida de Luanda", resume.

Do outro lado do Marçal está o bairro Rangel, onde encontramos Domingas António. Há 46 anos moradora neste bairro, lamenta que o respeito e a relação de boa vizinhança tenham desaparecido com o tempo, sobrando apenas boas recordações de uma Luanda mais acolhedora.

"Agora entre vizinhos já não há respeito mútuo", desabafa, lamentando também as condições de vida: "A comida está cara, estamos mesmo mal, mas, graças a Deus, ninguém vai morrer de fome, Deus está connosco".

Ainda no Rangel, na Rua dos Séngolas, zona periférica com escoamento a céu aberto e alguns focos de lixo, Antonica Fernandes Cortês, 74 anos, há mais de 50 anos naquele bairro, queixa-se da insegurança e diz que os esgotos anexos às residências vieram minimizar os estragos causados pelas chuvas, mas pede mais escolas e emprego para a juventude local.

"Os nossos filhos têm de trabalhar, têm de estudar, têm de gozar boa vida, não estão a gozar boa vida por falta de emprego", lamenta.

Os desafios da cidade litoral que celebra 450 anos foram igualmente descritos por António João, que mora no Sambizanga, referindo que o êxodo populacional para a capital angolana, por consequência da guerra civil, trouxe vários problemas.

"E hoje temos a Luanda que temos, com saneamento básico precário, problemas de saúde (...) aqui no Sambizanga temos um novo centro de saúde que está a ajudar a nossa população, [mas] também a situação de delinquência está muito mal, a juventude clama muito por emprego", refere.

António João, 63 anos, ex-militar e com reforma precária exorta, por isso, o governo provincial de Luanda a fazer mais para minimizar os problemas dos habitantes, "principalmente no domínio da cesta básica, que é uma situação que está a martelar a cabeça dos angolanos".

Leia Também: Nova fábrica em Luanda pode produzir mais de 20.000 carros por ano

FONTE: https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2925432/em-luanda-municipes-gritam-por-fome-nos-450-anos-da-cidade#utm_source=rss-mundo&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed


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