Ambição de Trump sobre a Gronelândia intensifica tensão com a Europa
- 08/01/2026
Território autónomo do Reino da Dinamarca, situado entre os oceanos Atlântico e Ártico, a Gronelândia tem cerca de um quarto da sua superfície coberta de gelo, uma população de aproximadamente 56.000 habitantes e recursos minerais estratégicos, incluindo terras raras, cujo valor aumentou com o degelo progressivo do Ártico.
A incerteza em torno dos planos de Trump intensificou-se desde a visita privada do seu filho, Donald Trump Jr., à ilha, em janeiro de 2025, e da deslocação do vice-Presidente, JD Vance, à base militar norte-americana de Pituffik, em março do mesmo ano.
O interesse de Trump pela Gronelândia remonta ao seu primeiro mandato, quando, em agosto de 2019, confirmou publicamente a intenção de comprar o território, proposta rejeitada de imediato pela primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, que afirmou que "a Gronelândia não está à venda".
Já no seu segundo mandato, Trump declarou, em dezembro de 2024, que a "propriedade e o controlo" da ilha constituem uma "necessidade absoluta" para a segurança nacional dos Estados Unidos, posição reiterada nos últimos dias pela Casa Branca, que admitiu não excluir o uso das forças armadas e manifestou também disponibilidade para uma compra.
Segundo o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, os assessores de Trump estão a preparar um plano atualizado para encontrar uma via que permita adquirir o território, declaração que voltou a alarmar governos europeus.
Copenhaga reagiu convocando repetidamente representantes diplomáticos norte-americanos e exigindo respeito pela integridade territorial do reino, posição apoiada pela Comissão Europeia e por vários chefes de Governo europeus, que sublinharam que a soberania da Dinamarca é essencial para a União Europeia.
O primeiro-ministro da Gronelândia, Múte B. Egede, apelou à calma, reiterando que o futuro do território cabe exclusivamente aos groenlandeses, embora tenha manifestado abertura para reforçar a cooperação económica com Washington.
Uma sondagem divulgada em janeiro de 2025 indicou que 85% da população da Gronelândia se opõe a uma eventual saída da Dinamarca, contra apenas 6% favoráveis à anexação aos Estados Unidos.
O interesse norte-americano pela ilha não é novo e remonta ao século XIX, tendo sido formalizado em 1946, quando o então Presidente Harry Truman ofereceu 100 milhões de dólares à Dinamarca pela Gronelândia, proposta rejeitada por Copenhaga.
Mas a ambição em relação à Gronelândia insere-se numa longa tradição expansionista norte-americana, iniciada no século XIX, com a compra da Luisiana à França, em 1803, por 15 milhões de dólares, durante a presidência de Thomas Jefferson, acordo aceite por Napoleão Bonaparte e que duplicou a dimensão territorial dos Estados Unidos.
Em 1819, a Flórida oriental foi cedida por Espanha através do Tratado Adams-Onís, seguindo-se a incorporação do Texas, em 1845, e a chamada Cessão Mexicana após a guerra de 1848, que integrou vastos territórios hoje correspondentes à Califórnia, Nevada, Utah, Arizona e partes de outros estados do sudoeste.
A expansão prosseguiu com a compra do Alasca à Rússia, em 1867, por 7,2 milhões de dólares, e com a aquisição das atuais Ilhas Virgens Americanas à Dinamarca, em 1917, por 25 milhões de dólares em ouro.
Atualmente, os Estados Unidos mantêm uma presença militar permanente na Gronelândia, herdeira de acordos assinados durante a Segunda Guerra Mundial e da instalação da estratégica base aérea de Thule, um dos pilares do sistema de defesa no Ártico durante a Guerra Fria.
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